Taking ideas seriously

Este texto foi amplamente inspirado neste post - e, portanto, é, de algum modo, uma tentativa explícita de fazer considerações similares (ainda que de forma muito menos profunda), aplicadas ao meu universo particular.

 

Antecipo desculpas se essa discussão (ou, melhor, questionamento) parecer excessivamente não fundamentada. Em suma, estou descarregando, de forma desorganizada, uma preocupação que surgiu de forma súbita. É provável que exista uma ampla literatura sobre esse assunto, em filosofia e psicologia (e quem sabe até mesmo em ciência da computação!), e que eu devo, agora, tentar consultá-la. De todo modo, com sorte posso conseguir coletar algumas opiniões e fazer um mapeamento inicial do território. 

 

OK, talvez qualquer pessoa sensata já tenha esbarrado com e lido uma torrente de textos discutindo esse assunto, mas sou desatento. Também me desculpem se esses tipos de questionamentos já tiverem sido "moda" em algum tempo (ou mesmo agora). Eu realmente não conheço nem tenho intenção de sinalizar qualquer tipo de comportamento ou valor específico (e.g. diferença, independência). Meu objetivo é puramente instrumental. Quero apenas saber como VOCÊS conseguem viver e tomar decisões importantes enquanto afundados em tantas incertezas sobre questões tão BÁSICAS.

 

Como as pessoas podem ter tanta certeza sobre as suas vontades? Como podem ter tanta certeza sobre as vontades e motivações que, à luz de um suposto "auto-exame", pensam ter identificado? Como podem estabelecer objetivos, traçar metas e tomar decisões fortes, com enorme envolvimento de recursos (financeiros e emocionais) por períodos muito longos (eventualmente décadas)? 

 

Eu consigo reconhecer a utilidade desse tipo de ilusão sobre as possibilidades do auto-conhecimento, do processo de prospecção das motivações, ou mesmo, mais do que isso, a utilidade de se reduzir a um mínimo os modos não-automáticos de funcionamento. Ou ainda, a utilidade de se adotar rapidamente, sem maior exame, um pequeno conjunto útil de valores e a partir daí entrar em um modo de operação mais ou menos automático, mais ou menos coerente com aquele conjunto de valores (?), mas voltado principalmente para o "mundo externo". Apesar disso, como as pessoas conseguem (ou acham que conseguem) separar o sinal interno real do ruído? Porque elas imaginam que os dados que elas eventualmente coletaram não estão corrompidos por todo tipo de desvio? Como acham que podem filtrar isso? Aliás - e antes de tudo - de que modo as pessoas em geral "definem" (ainda que apenas implicitamente) vontade?

 

Ainda que fossemos amplamente capazes de acessar nossas motivações e vontades, com grau de incerteza baixo o suficiente para tomar uma decisão de longo prazo, como decidir comprometer tantos recursos, por tanto tempo, se nossas preferências, "vontades" e motivações não permanecerão fixas (e nem deveriam) ao longo do tempo?

 

Afinal, o que são esses "valores"? Que processos dão origem a eles? Como você identifica um valor? A princípio, é possível que alguém confunda emoções que associam a estados específicos do mundo (e.g. igualdade, liberdade) por interesses diretos nesses estados?

 

De que modo é possível, uma vez preso nessa "armadilha", voltar (ou simplesmente desenvolver isso pela primeira vez) a cultivar simplificações e ilusões úteis?

 

Me confunde o fato de que pessoas claramente mais inteligentes do que eu, capazes e interessadas na reflexão filosófica, podem tomar esse problema como uma questão fechada. Talvez me falte atenção a algum aspecto fundamental, alguma premissa implícita que não consigo enxergar, mas que seja tão intuitivo à maioria das pessoas que elas sequer precisam pensar diretamente nessa questão. Assim, se você pretende comentar (obrigado), seja explícito e presuma que sou um alienígena.

 

Como VOCÊS podem ter certeza de que a sensação que vocês têm quando acreditam ter identificado uma vontade, motivação ou valor mais profundo não seria, na verdade, digamos, indigestão?

 

Autismo: minha receita para promover aceitação e apreciação.

Evidentemente, este texto está saindo com um dia de atraso. No entanto, não porque falhei em concluí-lo a tempo, mas sim por apenas ter tido a "inspiração" para escrevê-lo hoje mesmo, após observar, a distância, algumas das movimentações e discussões motivadas pelo dia mundial de conscientização sobre o autismo. Além disso, fui instado a escrevê-lo por este post, que resumiu de forma simples e compreensiva boa parte das minhas reflexões sobre o assunto ao longo dos últimos meses. Ali, várias pessoas, entre ativistas de movimentos de aceitação do autismo e outras pessoas ligadas à causa, sejam pais ou profissionais de educação e saúde, oferecem opiniões sobre quais são as formas atualmente disponíveis de efetivamente mudar o mundo e elevar a qualidade de vida dos autistas, para muito além da simples conscientização. Note, no entanto, que isso não significa total concordância com todas as opiniões expressas no referido link. Mas, ainda que eu possa ter discordâncias importantes em alguns pontos, em geral elas se restringem a considerações de intensidade nas extrapolações realizadas na hora de propor soluções para alguns problemas corretamente identificados. Então, o objetivo deste texto é oferecer a minha opinião sobre o que os autistas realmente precisam, na linha do que aparece no referido link. O texto foi planejado para ter como audiência principal pais de autistas, em especial os neurotípicos. 

 

De fato, em uma palavra - ou melhor, duas - o que os autistas mais precisam é de aceitação e apreciação. Aceitação é o passo seguinte e necessário à conscientização. Na maior parte das vezes, a "conscientização" parece ser realizada, na prática, ao longo de direções profundamente equivocadas, sendo comum que venha acompanhada de um desumano julgamento de valor. Autistas não são pessoas cujo cerne de suas vidas são dominados pelo sofrimento, independente do ambiente em que estão inseridos; onde são ou estão infelizes, isso será frequentemente culpa da recepção, incompreensão e inaceitação que recebem da sociedade, em especial das expectativas irrazoáveis e desumanas impostas sobre eles pelos próprios pais. Em geral, autistas são pessoas felizes e apreciadores genuínos da vida, muito além do que jamais poderíamos sonhar em ser. Aqui, está claro que a aceitação e apreciação do valor intrínseco do autista deve começar pelos próprios pais e familiares mais próximos. Nesse contexto, esperamos que caiam em desuso várias manifestações das mais populares mesmo entre os plenamente "conscientes" do autismo, às vezes pronunciadas na presença do autista. Um exemplo clássico é o seguinte: 

 

"Ele é muito inteligente e carismático; corta-me o coração imaginar onde ele poderia chegar se não fosse autista."

 

O autismo não é algo que possa ou deva ser "curado." Ainda que você consiga induzir um bom nível de autonomia, seu filho não terá sido curado do autismo. A própria natureza do espectro autista torna clara a existência de um espectro de perfis cognitivos distintos, manifestações de uma diversidade neurológica que abarca todos os seres humanos, em maior ou menor grau. A diversidade neurológica deve ser aceita e promovida não apenas como uma realidade que não podemos mudar, mas também como algo que não devemos mudar, sob pena de perdermos nossa capacidade episódica de realizar mudanças capazes de elevar a eficiência do funcionamento e garantir a sobrevivência e estabilidade de nossa sociedade.

 

Aqui, também deve ficar claro que não se justifica a imposição de qualquer tipo de intervenção terapêutica com base numa suposta possibilidade de resultar em uma "adequação" do comportamento do autista às expectativas da sociedade, sendo estes processos capazes de torná-los extremamente infelizes. Sim, é muito desejável que seu filho seja capaz de realizar pequenas tarefas domésticas, cuidados de higiene pessoal e fazer compras simples em um supermercado. Mas isso não significa que seu comportamento deva ser artificialmente controlado todo tempo, para não chocar ou amedrontar as pessoas, ou para não atrair muita atenção. A simples promoção da conscientização sobre o autismo não será suficiente para que seu filho seja aceito. Isso acontecerá quando a imagem na cabeça das pessoas passe a ser a de autistas plenamente capazes, aptos a uma vida feliz e, provavelmente, produtiva, com a sociedade se beneficiando de suas habilidades específicas.

 

Também deve cessar o tratamento patologizado comumente dado ao autismo. Note que, em geral, é esse o tratamento que a mídia dá ao assunto quando a instamos a contribuir para a "conscientização." Amigos, por favor, parem de citar os números recentes do CDC americano como recurso para promover a conscientização. O regurgitamento de dados crus e não interpretados não contribui para nenhum tipo de causa importante e fortalece a indústria de exploração das supostas "mazelas" do autismo, por esses vendido como uma das maiores fatalidades possíveis, destruidor de famílias e vertedouro de enorme parcela dos PIBs nacionais. 

 

Muitos se perguntam aonde estão os autistas adultos? Em toda parte. Você provavelmente já convive, de forma inadvertida, com vários deles, talvez em sua própria família. Ser capaz de "esconder" (até mesmo de si próprio) e suprimir algumas características inatas e associadas a um prejuízo de seu funcionamento na sociedade, é uma habilidade muito comum entre alguns autistas (e, naturalmente, também entre os neurotípicos - pense em introvertidos que podem simular, com grande esforço mas eventual benefício, "extroversão.") Muitos de vocês, pais de autistas, também podem sê-los - ou, ainda que não satisfaçam plenamente todos os critérios diagnósticos, podem possuir suficientes traços autísticos para não apenas explicar a "origem" do autismo em seus filhos, mas também para ajudar a compreendê-los melhor. A aceitação plena do autismo também pressupõe a capacidade para aceitá-lo e apreciá-lo em si mesmo, quando for o caso, e em outros adultos próximos. Ainda que não seja uma decisão fácil e livre de consequências negativas, considere tornar pública sua condição - isso poderá facilitar sua luta pela aceitação de seus filhos.

 

Francamente, acredito que os dois melhores investimentos que os pais de um autista podem fazer são os seguintes:

 

1) Cuidar de sua própria saúde mental.

 

Em geral, a estabilidade emocional poderá ser alcançada por meio da aceitação plena do autismo, mas esse processo, sabemos, é quase sempre não trivial. A aceitação pessoal do autismo pode ser um processo que pouco depende do nível e da qualidade da informação disponível, envolvendo a superação de barreiras culturais que nos seguiram e foram úteis ao longo de muitas gerações.

 

Note que a situação de seus filhos, apesar do grande comprometimento emocional envolvido - ou precisamente por causa disso -, demanda que você seja o mais racional possível. E não apenas na hora de tomar decisões a respeito de seu filho. Está aí uma ótima hora e motivação para aprender e desenvolver como hábito a aplicação de técnicas que permitam a identificação e supressão dos vieses cognitivos que prejudicam nossos julgamentos. Seja qual for o cenário, para que você aja de forma eficiente é fundamental que exista um mínimo de estabilidade ou capacidade de controle emocional.

 

Vinculado à essa questão, há uma sugestão muito mais simples: Tenha uma vida própria! Não permita que a sua vida, sua personalidade, sua visão de mundo e suas opiniões sejam inteiramente definidas pelo fato de você ter um filho autista. É importante que você tenha princípios universais e invioláveis mesmo diante do surgimento de condições inesperadas e eventualmente prejudiciais a você. Você não pode ser apenas um pai ou mãe de autista, por mais que esse fato represente, na prática, uma função que envolve grande esforço e orgulho. Se você não tem tempo ou energia para desenvolver seus interesses, isso já é uma boa indicação de que você está fazendo algo errado nos cuidados com o seu filho. OK, eu acho que ter um filho autista é uma experiência de longe mais influente e transformadora do que a paternidade pura e simples. Mas note que essa influência é, naturalmente, positiva e ampliadora de horizontes. É algo que deve aguçar seus sentidos e promover a capacidade de reflexão ao longo das demais esferas da vida. Algo para elevar o prazer com a vida, seu interesse em aprender coisas novas e em formar opiniões mais precisas, justas e fundamentadas na realidade. Portanto, algo para torná-lo um pensador mais crítico, direto, pragmático e benevolente. Se sua experiência com um filho autista serviu para que você se fechasse para o mundo, isso é uma indicação de que você está fazendo algo errado nos cuidados com o seu filho. Em geral, tendências pré-existentes encontram um ambiente mais adequado ao seu florescimento. Se seu casamento acabou "por causa do autismo," sinta-se feliz por não ter sido preciso prolongar um relacionamento cujos prejuízos no longo prazo não podiam ser claramente considerados em um ambiente estável. Se um familiar voltou-lhe as costas, agradeça pelo contexto que tornou possível a você coletar uma informação que de outro modo não lhe seria revelada, a tempo de evitar consequências realmente graves.

 

Uma das maneiras mais eficientes de ajudar a construir um mundo que melhor aceite e aprecie seu filho é tentar promover mudanças mais profundas e generalizadas em nossa sociedade. Não jogar todas as suas fichas na conscientização do autismo, ou robotizar os comportamentos de seu filho na direção dos padrões neurotípicos. Há várias causas externas ao autismo que são capazes de induzir as transformações desejadas, promovendo um ambiente que beneficiará diretamente ao seu filho ou ao menos às próximas gerações de autistas. Vá pensar em e promover soluções para o aprimoramento dos sistemas democráticos atuais. Vá tentar defender também os direitos de outras parcelas significativas da população que também não é aceita e compreendida. Não cometa o erro de achar que a sua causa é mais importante que outras. Vá apurar sua própria racionalidade e lutar pela difusão desse ideal de pensamento mais claro e eficiente entre seus pares.

 

2) Aumentar sua compreensão do autismo, de acordo com o corpo de conhecimento científico acumulado até agora.

 

E não ingressar em uma busca e aplicação alucinada, apaixonada, desumana (tanto para você quanto para seu filho) e, principalmente, desordenada e ineficiente de meios capazes de eliminar ou suprimir ao máximo as características de seu filho, processo que pode levá-lo a ser, aí sim, muito infeliz. Note que isso é fundamental para que seu filho sinta-se aceito e respeitado, em suas características diferenciadas e eventuais limitações. Não cometa o terrível erro de achar que seu filho é incapaz de sentir qual é a sua percepção sobre ele. Opinião pouco comum de um pai de autista em um documentário: "Quem somos nós para julgar a qualidade de vida e a felicidade de um autista?". Do alto de nossa percepção enviesada e socialmente construída de quais realizações pessoais observáveis e sinalizáveis denotam "felicidade."

Planejamento Estratégico em Ambiente de Incerteza

(Apresentação do final de 2010. ) Foco no setor elétrico.

Click here to download:
plan_estr_pdf.pdf (351 KB)
(download)

Filed under  //   incerteza   planejamento estratégico   seb  

A economia política do Estado mínimo

Há muito ceticismo sobre o poder público no Brasil. Nesse contexto, parece paradoxal, ao menos a princípio, que a demanda pela participação do Estado nas várias esferas da vida em sociedade esteja crescendo. É comum que se demande mais investimentos do Estado em saúde, educação, segurança pública e infraestrutura, e ao mesmo tempo se defenda alguma forma de limitar os gastos públicos. Apesar de algumas pequenas variações, essa visão parece independer do grupo político ou da visão ideológica que a pessoa afirma subscrever, e em geral vem desacompanhada de qualquer argumento sobre formas de equilibrar os dois lados defendidos. É curioso que os problemas na atuação do Estado sejam associados unicamente à "imoralidade da classe política atual" e não a falhas inerentes aos sistemas de incentivos subjacentes a ele.

 

Apesar de beber ferozmente dos benefícios que os livres mercados, onde foram permitidos funcionar, trouxeram, não é comum atribuir-se esses benefícios às idéias liberais que os viabilizaram. A desconfiança popular com o setor privado é ainda maior que a anterior, e seus argumentos costumam ser tratados como axiomas. No campo acadêmico, as severas limitações julgadas inerentes ao funcionamento dos livres mercados, de fato preconizadas por um corpo teórico respeitável, tendem a ser facilmente popularizadas pelo recurso a dados empíricos cuja análise não enviesada muitas vezes levaria a conclusões ao menos ambíguas. Há externalidades inerentes aos dois extremos do espectro institucional, e não existe razão fundamental para julgar a priori um deles como mais apropriado.

 

Um outro campo em que as idéias liberais tiveram um impacto significativo foi sobre a eficiência da atuação do Estado, que obviamente também se reflete sobre a eficiência na arrecadação de impostos, já em elevação com o crescimento econômico promovido por aquelas mesmas idéias. Isso pode explicar, ao menos parcialmente, a tendência ao crescimento da demanda por mais Estado. Nesse contexto, os exemplos atuais do welfare state europeu servem para alertar que qualquer equilíbrio não pernicioso entre gasto público e crescimento econômico é difícil de atingir e, ainda mais, de manter. 

 

Por outro lado, as idéias liberais ajudaram a promover um maior interesse por liberdades positivas. Avanços nesse tipo de liberdade também induzem um aumento na participação do Estado, que é frequentemente chamado para garantí-las. Enfim, essa parece ser uma tendência comum às sociedades humanas em qualquer tempo: uma vez promovido o crescimento econômico, parte do excedente produzido será investido em mais Estado e especialmente na transferência direta de valores para setores específicos dessa sociedade. Reconhecer esse fato é parte importante da resposta que se exige de qualquer corrente de pensamento liberal que se queira influente frente aos desafios da modernidade. O custo para reduzir as esferas de atuação do Estado são proibitivos, e nesse sentido o Estado mínimo não coincide necessariamente com o máximo de liberdade. O "espaço de manobra" viável é muito reduzido e o melhor que pode ser feito é identificar setores fundamentais em que é necessário fortalecer as instituições e, ao mesmo tempo, promover liberdades, especialmente as positivas. O escopo e o limite ideal para o Estado pode variar com o país e certamente é diferente ao longo do tempo. A natureza da velha batalha entre liberdade e Estado não é mais tão evidente e não faz mais sentido contabilizar vitórias e derrotas. Algumas das principais ameaças atuais à liberdade vêm de setores que não fazem parte das antigas categorias: por exemplo, escassez de energia, impacto de mudanças climáticas e consequências da imigração.

 

Na hora de comparar Estado e iniciativa privada, ainda existe uma tendência muito forte de focalizar medidas da participação do primeiro no PIB e há pouco interesse na influência relativa das respectivas esferas de atividade sobre a sociedade. A medida relevante deveria ser o tamanho absoluto e a eficiência das atividades que são usualmente promovidas por meio de mercados organizados. Nesse caso, o papel do Estado, no campo das liberdades positivas, deve ser o de criar condições favoráveis para reforçar as tendências reais já existentes na sociedade.

 

No Brasil atual a batalha mais importante é pela eficiência do Estado, e se isso passar pela, ou tiver como consequência a, redução dos gastos públicos tanto melhor (mas não necessário). É fundamental ter a consciência de que esses avanços vão gerar, mais adiante, ainda mais demanda pela atuação do Estado, mas que esse fato não será preocupante, na prática, se o tamanho absoluto das esferas de atuação dos mercados crescer mais rapidamente que o Estado, sendo esse um sinal de que está sendo criada suficiente liberdade positiva.

Filed under  //   economia política   liberalismo  

Panorama do Setor Elétrico Brasileiro

No contexto do Setor Elétrico Brasileiro (SEB), um dos poucos "espaços de manobra" disponíveis cuja manipulação pode ter consequências sistêmicas benéficas está na expansão da abertura do mercado no lado da demanda. Isto é, na extensão da competição no varejo para outras classes de consumidores, potencialmente os consumidores residenciais. Porém, existe um conjunto significativo de obstáculos, que em sua maior parte são puramente políticos (e não institucionais, tecnológicos ou econômicos). De fato, já há até mesmo quem pense em inflexibilizar ainda mais a competição no varejo hoje existente.

 

A estrutura mista do mercado no lado da produção deverá manter-se estável por mais algum tempo, dados, por exemplo, o aparente interesse estratégico e político pelos aproveitamentos hidráulicos de grande porte, extremamente intensivos em capital, e a atual resistência política a novas privatizações. Além disso, mesmo em cenários de projeção da demanda para horizontes relativamente longos, a significativa parcela de participação estatal na geração não parece se traduzir em um grande risco de desabastecimento ou de comprometimento excessivo das contas públicas. Se a participação estatal for bem conduzida, com regras claras e transparência de objetivos, a capacidade do setor atrair investimentos privados em geração pode não ser muito comprometida, ainda que fique basicamente limitada à parte complementar da matriz energética. 

 

Naturalmente, a grande dependência da matriz de produção atual dos vários regimes pluviométricos atuantes em um território continental introduz um grau significativo de instabilidade e incerteza no setor, mesmo com a operação centralizada. Esse grau de instabilidade tende ao crescimento, diante de um cenário de mudanças climáticas que já estão em processo (independente de sua natureza). Esse quadro plausível deveria ser suficiente para criar uma demanda consistente por uma maior distribuição e variedade dos recursos de produção. O ideal seria que várias fontes de energia tomassem posições de maior destaque na matriz, com um maior número de unidades geradoras de menor porte distribuídas espacialmente ao longo do território nacional. O resultado seria menor dependência das variações pluviométricas, e portanto maior segurança de suprimento, redução no uso de capital, na maior parte público, para construção de hidrelétricas de grande porte, menor impacto ambiental e um reforço na tendência já existente de maior diversificação da matriz ao longo de várias fontes alternativas. Nesse contexto, também seria esperada a abertura de espaço para promover um nível ao menos moderado de descentralização nas decisões de operação do sistema elétrico.

 

Por razões que ainda fogem a qualquer tentativa de análise racional, partes significativas do SEB ainda são objeto de manipulações arbitrárias por parte de grupos políticos totalmente alheios aos aspectos técnicos do setor. Seus principais instrumentos encontram-se, basicamente, nas estatais da geração e no Ministério de Minas e Energia (MME). Há uma centralização excessiva das decisões do setor em um ministério historicamente loteado entre os membros de um mesmo grupo político que vem mantendo sua influência mesmo sob transições no poder executivo federal. Embora esse quadro não seja muito diferente daquele encontrado na maioria dos outros ministérios, é curioso observar a diferença de tratamento com o Ministério da Fazenda, por exemplo, aparentemente isolado das pressões políticas. No entanto, o MME lida com situações e decisões envolvendo grandes volumes financeiros, que exigem grande conhecimento técnico e experiência, e cujas consequências, às vezes sutis, em geral não podem ser antecipadas ou observadas no curto prazo. 

Filed under  //   energia   seb  

Mais sobre produtividade e motivação

Quando eu falei sobre os truques anti-procrastinação, eu nem pensava diretamente nos exemplos mais simples e comuns de pessoas que caem facilmente nesses efeitos placebo. Eu tinha em mente exemplos mais sutis, como os de uma comunidade de (aspirantes a) racionalistas (cujo membro médio conta, no mínimo, com uma capacidade de reflexão e de abstração MUITO acima da média) que, corroídos pela akrasia (e por conseguinte incapazes de usar os recursos que cultivam para "salvar o mundo" - e outros objetivos menos altruístas), levantam discussões muito sérias em torno da possibilidade de enganar suas próprias consciências.

 

A alternativa de procurar um controle externo é boa - na verdade, à primeira vista parece ser a única viável. No entanto, acho que, no geral, muitas pessoas - e, eu em particular - precisariam restringir muito o processo de controle para que se tivesse uma mínima chance de eficácia - mesmo se pensarmos em alguém suficientemente próximo, empático e confiável para exercer o papel central. Frequentemente, como veremos a seguir, a proximidade será, na verdade, um impedimento. O processo teria que envolver principalmente a discussão de objetivos e opções existentes, levantamento de alternativas, oferta de perspectivas diferentes, teste de schedules (e de "arquiteturas" de controle de uma forma mais geral). Portanto, precisaria ser uma parceria mais profunda e isso provavelmente exigiria (além de conhecimento das idiosincrasias do indivíduo - e do histórico de tentativas anteriores, que muitas vezes não está disponível ou ao menos não foi corretamente interpretado pela pessoa) um bom nível de distanciamento emocional. O que eliminaria a condição vantajosa da maior parte das pessoas muito próximas, sendo elas tão diretamente afetadas por essas escolhas e pelos resultados do processo de controle como um todo. Há uma clara tendência à instabilidade e, eventualmente, todo um conjunto de consequências negativas não triviais associadas aos relacionamentos existentes entre o indivíduo e aqueles que o auxiliam no processo de controle.

 

Um dos "conselhos" universais mais irritantes que conheço nessa área é o de que "a necessidade DEVE ser motivação suficiente". O que mais me incomoda nisso nem é a grosseira simplificação por trás da visão que a sustenta, mas sua capacidade de autosustentar-se, especialmente diante de problemas em sua aplicação, mesmo em um nível puramente individual, mesmo com pessoas que em absoluto não se identificam com a cultura geral que a cultiva. Não parece existir, mesmo entre os nossos melhores candidatos, uma perspectiva mais geral e aberta o suficiente para acomodar a idéia de que pode existir tanta diversidade neurológica entre as pessoas a ponto de existirem, entre elas, algumas que não seriam motivadas nem mesmo pelos instintos mais primários de sobrevivência. Então, existe a chance de que esse tipo de argumento seja ao menos implicitamente levado à tona em qualquer processo de controle desse tipo - e esse seria o pior cenário (des)motivacional possível.

 

Talvez uma alternativa a pensar seja a de tentar aproveitar bem as oportunidades que surgirem e que possam servir como triggers motivacionais (externos), gerando  pequenos loops de controle (ocultos e involuntários - da parte das outras pessoas envolvidas). Mas isso poderia ser muito fragmentado e introduzir incerteza demais no processo motivacional.

 

Por outro lado, encontrar alguém que possa exercer ativamente tal papel, sob as pesadas restrições acima mencionadas, provavelmente só seria possível no contexto de um grupo de suporte formado por pessoas com mais ou menos as mesmas características, que enfrentam problemas semelhantes e que estão dispostos a tratá-los por meio do mesmo conjunto de ferramentas. Ainda assim, o esforço para descrever as suas condições seria intenso demais para a maioria.

Filed under  //   motivação   produtividade  

Sobre produtividade e procrastinação

Não consigo entender a maior parte das dicas de produtividade que frequentemente chegam até mim. Em especial, aquelas destinadas a combater algum comportamento procrastinador. Não entendo como alguém pode ser capaz de, reconhecendo os meandros e mecanismos adotados por sua mente para evitar alguma atividade, criar e colocar em prática com sucesso uma estratégia para tapear esse processo. Digo, uma vez consciente de toda a linha de ação, não consigo evitar que a estratégia seja de algum modo sabotada. O esforço para manter-se consciente desse processo tende a ser suficiente para identificar a natureza do problema e divisar uma solução. No entanto, para mim essa solução é puramente teórica - mesmo nas poucas instâncias em que existiu algum sucesso, este foi sempre temporário e parcial e a mente foi capaz de encontrar outras saídas e fugir da armadilha.

Probability is Subjectively Objective

Your "probability that the ten trillionth decimal digit of pi is 4", is an attribute of yourself, and exists in your mind; the real digit is either 4 or not.  And if you could change your belief about the probability by editing your brain, you wouldn't expect that to change the probability.

Cigarettes may be useful for distance runners?!? (or, How to prove anything with a review article) | Obesity Panacea

Even with systematic reviews, which are the highest form of scientific evidence, there is still a lot of room for subjectivity. You can develop a systematic review in a way that makes it more or less likely that you will find a certain outcome, just as you could with an individual study. Not only that, but the review depends on the objectivity of the people screening articles, who could (intentionally or accidentally) systematically include or exclude articles that may have an impact on the review’s ultimate conclusions.  And then of course the authors have to synthesize data and come to conclusions, both of which are mostly subjective activities.

If you are doing actual experiments and making observations or proving theorems, then to a large extent -- larger in some sciences than in others -- you are constrained by the brute facts. But when writing secondary literature, especially in areas where data is generally fuzzier, it is easy, whether deliberately or not, to write to a bottom line, including findings you like and excluding those you don't.

About

Maverick mathologist, anxiety-driven shadower, infornographic writer, edupunk.

Contact: gladstone(at)gmail(dot)com

--
Sou "engenheiro de automação e controle" por formação. Mestre em engenharia elétrica (UFMG, 2004), doutorando. Um "maverick mathologist", na definição de Paul Richard Halmos.

TwitterFacebookFlickrTumblr