Planejamento Estratégico em Ambiente de Incerteza
(Apresentação do final de 2010. ) Foco no setor elétrico.
(Apresentação do final de 2010. ) Foco no setor elétrico.
Há muito ceticismo sobre o poder público no Brasil. Nesse contexto, parece paradoxal, ao menos a princípio, que a demanda pela participação do Estado nas várias esferas da vida em sociedade esteja crescendo. É comum que se demande mais investimentos do Estado em saúde, educação, segurança pública e infraestrutura, e ao mesmo tempo se defenda alguma forma de limitar os gastos públicos. Apesar de algumas pequenas variações, essa visão parece independer do grupo político ou da visão ideológica que a pessoa afirma subscrever, e em geral vem desacompanhada de qualquer argumento sobre formas de equilibrar os dois lados defendidos. É curioso que os problemas na atuação do Estado sejam associados unicamente à "imoralidade da classe política atual" e não a falhas inerentes aos sistemas de incentivos subjacentes a ele.
Apesar de beber ferozmente dos benefícios que os livres mercados, onde foram permitidos funcionar, trouxeram, não é comum atribuir-se esses benefícios às idéias liberais que os viabilizaram. A desconfiança popular com o setor privado é ainda maior que a anterior, e seus argumentos costumam ser tratados como axiomas. No campo acadêmico, as severas limitações julgadas inerentes ao funcionamento dos livres mercados, de fato preconizadas por um corpo teórico respeitável, tendem a ser facilmente popularizadas pelo recurso a dados empíricos cuja análise não enviesada muitas vezes levaria a conclusões ao menos ambíguas. Há externalidades inerentes aos dois extremos do espectro institucional, e não existe razão fundamental para julgar a priori um deles como mais apropriado.
Um outro campo em que as idéias liberais tiveram um impacto significativo foi sobre a eficiência da atuação do Estado, que obviamente também se reflete sobre a eficiência na arrecadação de impostos, já em elevação com o crescimento econômico promovido por aquelas mesmas idéias. Isso pode explicar, ao menos parcialmente, a tendência ao crescimento da demanda por mais Estado. Nesse contexto, os exemplos atuais do welfare state europeu servem para alertar que qualquer equilíbrio não pernicioso entre gasto público e crescimento econômico é difícil de atingir e, ainda mais, de manter.
Por outro lado, as idéias liberais ajudaram a promover um maior interesse por liberdades positivas. Avanços nesse tipo de liberdade também induzem um aumento na participação do Estado, que é frequentemente chamado para garantí-las. Enfim, essa parece ser uma tendência comum às sociedades humanas em qualquer tempo: uma vez promovido o crescimento econômico, parte do excedente produzido será investido em mais Estado e especialmente na transferência direta de valores para setores específicos dessa sociedade. Reconhecer esse fato é parte importante da resposta que se exige de qualquer corrente de pensamento liberal que se queira influente frente aos desafios da modernidade. O custo para reduzir as esferas de atuação do Estado são proibitivos, e nesse sentido o Estado mínimo não coincide necessariamente com o máximo de liberdade. O "espaço de manobra" viável é muito reduzido e o melhor que pode ser feito é identificar setores fundamentais em que é necessário fortalecer as instituições e, ao mesmo tempo, promover liberdades, especialmente as positivas. O escopo e o limite ideal para o Estado pode variar com o país e certamente é diferente ao longo do tempo. A natureza da velha batalha entre liberdade e Estado não é mais tão evidente e não faz mais sentido contabilizar vitórias e derrotas. Algumas das principais ameaças atuais à liberdade vêm de setores que não fazem parte das antigas categorias: por exemplo, escassez de energia, impacto de mudanças climáticas e consequências da imigração.
Na hora de comparar Estado e iniciativa privada, ainda existe uma tendência muito forte de focalizar medidas da participação do primeiro no PIB e há pouco interesse na influência relativa das respectivas esferas de atividade sobre a sociedade. A medida relevante deveria ser o tamanho absoluto e a eficiência das atividades que são usualmente promovidas por meio de mercados organizados. Nesse caso, o papel do Estado, no campo das liberdades positivas, deve ser o de criar condições favoráveis para reforçar as tendências reais já existentes na sociedade.
No Brasil atual a batalha mais importante é pela eficiência do Estado, e se isso passar pela, ou tiver como consequência a, redução dos gastos públicos tanto melhor (mas não necessário). É fundamental ter a consciência de que esses avanços vão gerar, mais adiante, ainda mais demanda pela atuação do Estado, mas que esse fato não será preocupante, na prática, se o tamanho absoluto das esferas de atuação dos mercados crescer mais rapidamente que o Estado, sendo esse um sinal de que está sendo criada suficiente liberdade positiva.
No contexto do Setor Elétrico Brasileiro (SEB), um dos poucos "espaços de manobra" disponíveis cuja manipulação pode ter consequências sistêmicas benéficas está na expansão da abertura do mercado no lado da demanda. Isto é, na extensão da competição no varejo para outras classes de consumidores, potencialmente os consumidores residenciais. Porém, existe um conjunto significativo de obstáculos, que em sua maior parte são puramente políticos (e não institucionais, tecnológicos ou econômicos). De fato, já há até mesmo quem pense em inflexibilizar ainda mais a competição no varejo hoje existente.
A estrutura mista do mercado no lado da produção deverá manter-se estável por mais algum tempo, dados, por exemplo, o aparente interesse estratégico e político pelos aproveitamentos hidráulicos de grande porte, extremamente intensivos em capital, e a atual resistência política a novas privatizações. Além disso, mesmo em cenários de projeção da demanda para horizontes relativamente longos, a significativa parcela de participação estatal na geração não parece se traduzir em um grande risco de desabastecimento ou de comprometimento excessivo das contas públicas. Se a participação estatal for bem conduzida, com regras claras e transparência de objetivos, a capacidade do setor atrair investimentos privados em geração pode não ser muito comprometida, ainda que fique basicamente limitada à parte complementar da matriz energética.
Naturalmente, a grande dependência da matriz de produção atual dos vários regimes pluviométricos atuantes em um território continental introduz um grau significativo de instabilidade e incerteza no setor, mesmo com a operação centralizada. Esse grau de instabilidade tende ao crescimento, diante de um cenário de mudanças climáticas que já estão em processo (independente de sua natureza). Esse quadro plausível deveria ser suficiente para criar uma demanda consistente por uma maior distribuição e variedade dos recursos de produção. O ideal seria que várias fontes de energia tomassem posições de maior destaque na matriz, com um maior número de unidades geradoras de menor porte distribuídas espacialmente ao longo do território nacional. O resultado seria menor dependência das variações pluviométricas, e portanto maior segurança de suprimento, redução no uso de capital, na maior parte público, para construção de hidrelétricas de grande porte, menor impacto ambiental e um reforço na tendência já existente de maior diversificação da matriz ao longo de várias fontes alternativas. Nesse contexto, também seria esperada a abertura de espaço para promover um nível ao menos moderado de descentralização nas decisões de operação do sistema elétrico.
Por razões que ainda fogem a qualquer tentativa de análise racional, partes significativas do SEB ainda são objeto de manipulações arbitrárias por parte de grupos políticos totalmente alheios aos aspectos técnicos do setor. Seus principais instrumentos encontram-se, basicamente, nas estatais da geração e no Ministério de Minas e Energia (MME). Há uma centralização excessiva das decisões do setor em um ministério historicamente loteado entre os membros de um mesmo grupo político que vem mantendo sua influência mesmo sob transições no poder executivo federal. Embora esse quadro não seja muito diferente daquele encontrado na maioria dos outros ministérios, é curioso observar a diferença de tratamento com o Ministério da Fazenda, por exemplo, aparentemente isolado das pressões políticas. No entanto, o MME lida com situações e decisões envolvendo grandes volumes financeiros, que exigem grande conhecimento técnico e experiência, e cujas consequências, às vezes sutis, em geral não podem ser antecipadas ou observadas no curto prazo.
Quando eu falei sobre os truques anti-procrastinação, eu nem pensava diretamente nos exemplos mais simples e comuns de pessoas que caem facilmente nesses efeitos placebo. Eu tinha em mente exemplos mais sutis, como os de uma comunidade de (aspirantes a) racionalistas (cujo membro médio conta, no mínimo, com uma capacidade de reflexão e de abstração MUITO acima da média) que, corroídos pela akrasia (e por conseguinte incapazes de usar os recursos que cultivam para "salvar o mundo" - e outros objetivos menos altruístas), levantam discussões muito sérias em torno da possibilidade de enganar suas próprias consciências.
A alternativa de procurar um controle externo é boa - na verdade, à primeira vista parece ser a única viável. No entanto, acho que, no geral, muitas pessoas - e, eu em particular - precisariam restringir muito o processo de controle para que se tivesse uma mínima chance de eficácia - mesmo se pensarmos em alguém suficientemente próximo, empático e confiável para exercer o papel central. Frequentemente, como veremos a seguir, a proximidade será, na verdade, um impedimento. O processo teria que envolver principalmente a discussão de objetivos e opções existentes, levantamento de alternativas, oferta de perspectivas diferentes, teste de schedules (e de "arquiteturas" de controle de uma forma mais geral). Portanto, precisaria ser uma parceria mais profunda e isso provavelmente exigiria (além de conhecimento das idiosincrasias do indivíduo - e do histórico de tentativas anteriores, que muitas vezes não está disponível ou ao menos não foi corretamente interpretado pela pessoa) um bom nível de distanciamento emocional. O que eliminaria a condição vantajosa da maior parte das pessoas muito próximas, sendo elas tão diretamente afetadas por essas escolhas e pelos resultados do processo de controle como um todo. Há uma clara tendência à instabilidade e, eventualmente, todo um conjunto de consequências negativas não triviais associadas aos relacionamentos existentes entre o indivíduo e aqueles que o auxiliam no processo de controle.
Um dos "conselhos" universais mais irritantes que conheço nessa área é o de que "a necessidade DEVE ser motivação suficiente". O que mais me incomoda nisso nem é a grosseira simplificação por trás da visão que a sustenta, mas sua capacidade de autosustentar-se, especialmente diante de problemas em sua aplicação, mesmo em um nível puramente individual, mesmo com pessoas que em absoluto não se identificam com a cultura geral que a cultiva. Não parece existir, mesmo entre os nossos melhores candidatos, uma perspectiva mais geral e aberta o suficiente para acomodar a idéia de que pode existir tanta diversidade neurológica entre as pessoas a ponto de existirem, entre elas, algumas que não seriam motivadas nem mesmo pelos instintos mais primários de sobrevivência. Então, existe a chance de que esse tipo de argumento seja ao menos implicitamente levado à tona em qualquer processo de controle desse tipo - e esse seria o pior cenário (des)motivacional possível.
Talvez uma alternativa a pensar seja a de tentar aproveitar bem as oportunidades que surgirem e que possam servir como triggers motivacionais (externos), gerando pequenos loops de controle (ocultos e involuntários - da parte das outras pessoas envolvidas). Mas isso poderia ser muito fragmentado e introduzir incerteza demais no processo motivacional.
Por outro lado, encontrar alguém que possa exercer ativamente tal papel, sob as pesadas restrições acima mencionadas, provavelmente só seria possível no contexto de um grupo de suporte formado por pessoas com mais ou menos as mesmas características, que enfrentam problemas semelhantes e que estão dispostos a tratá-los por meio do mesmo conjunto de ferramentas. Ainda assim, o esforço para descrever as suas condições seria intenso demais para a maioria.
Não consigo entender a maior parte das dicas de produtividade que frequentemente chegam até mim. Em especial, aquelas destinadas a combater algum comportamento procrastinador. Não entendo como alguém pode ser capaz de, reconhecendo os meandros e mecanismos adotados por sua mente para evitar alguma atividade, criar e colocar em prática com sucesso uma estratégia para tapear esse processo. Digo, uma vez consciente de toda a linha de ação, não consigo evitar que a estratégia seja de algum modo sabotada. O esforço para manter-se consciente desse processo tende a ser suficiente para identificar a natureza do problema e divisar uma solução. No entanto, para mim essa solução é puramente teórica - mesmo nas poucas instâncias em que existiu algum sucesso, este foi sempre temporário e parcial e a mente foi capaz de encontrar outras saídas e fugir da armadilha.
Your "probability that the ten trillionth decimal digit of pi is 4", is an attribute of yourself, and exists in your mind; the real digit is either 4 or not. And if you could change your belief about the probability by editing your brain, you wouldn't expect that to change the probability.
Even with systematic reviews, which are the highest form of scientific evidence, there is still a lot of room for subjectivity. You can develop a systematic review in a way that makes it more or less likely that you will find a certain outcome, just as you could with an individual study. Not only that, but the review depends on the objectivity of the people screening articles, who could (intentionally or accidentally) systematically include or exclude articles that may have an impact on the review’s ultimate conclusions. And then of course the authors have to synthesize data and come to conclusions, both of which are mostly subjective activities.
If you are doing actual experiments and making observations or proving theorems, then to a large extent -- larger in some sciences than in others -- you are constrained by the brute facts. But when writing secondary literature, especially in areas where data is generally fuzzier, it is easy, whether deliberately or not, to write to a bottom line, including findings you like and excluding those you don't.
The fact is the best school for an autistic child at age 5, might not be the best school for them at age 7, or 14. The severity of autism can change over time, and even if it didn’t, the school best suited to your child at the younger age might have an approach that simply doesn’t match your older child.
Foi realizado na tarde de ontem um rápido encontro de uma representante da Coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde com um pequeno grupo de pais cujas famílias são atendidas (ou deveriam ser atendidadas) pelas unidades de saúde pertencentes à Regional Norte da Prefeitura de Belo Horizonte. O objetivo do encontro era o de ouvir as demandas desses pais que, em audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte no último dia 4 (onde ela também esteve presente), manifestaram profunda insatisfação com o atendimento público de saúde que seus filhos autistas recebiam. A funcionária atende pelo nome de Juliana Daher. Não sei qual a função específica dela na Coordenadoria de Saúde Mental, mas para nossos propósitos esse tipo de informação é absolutamente irrelevante, por isso não farei o menor esforço para descobrir. Juliana Daher é apenas mais uma figura estóica da PBH que eventualmente se dispõe a ouvir demandas que para todos os efeitos práticos não existem. Não é que não reconheçam problemas, mas para a PBH esses são invariavelmente pontuais e podem ser resolvidos individualmente, por meio de pequenas correções de coordenação. Nesse contexto, demandas reais de que os serviços formais oferecidos são insuficientes não existem na prática, e esses poucos fantasmas que reclamam exageram na intensidade ou são utópicos e irrealistas demais para serem levados a sério. Ainda assim, guardemos o nome dela: Juliana Daher. Para todos os efeitos, essa foi a cara da PBH ontem, e será conveniente, ao menos nos limites deste texto, substituir “Prefeitura de Belo Horizonte”, tão impessoal e abstrato, por Juliana Daher, a figura estóica e genuinamente interessada em ajudar, mesmo quem de fato não precisa de ajuda ou nunca poderá receber o tipo de ajuda que diz desejar.
As demandas das 3 famílias que foram ouvidas ontem (está aí o número representativo de pessoas que Juliana Daher convidou a participar – está aí o número de amostras que a prefeitura, ops, que Juliana Daher, parece achar suficiente para diagnosticar uma situação e tomar decisões) foram coletadas separadamente, em contatos de 20 a 40 minutos cada. É como se as reclamações de pais cujos filhos autistas são atendidos dentro de uma mesma regional, ou, mais precisamente, por uma mesma equipe multidisciplinar que trabalha dentro de um mesmo centro de saúde, pudessem ser tão diferentes. Seria também um temor de que 3 pessoas em conjunto poderiam cobrir mais rapida e eficientemente seus argumentos frágeis? Curiosamente, eu não pude participar desse encontro. A Prefeitur... Juliana Daher, claro, assim como todo o serviço público municipal, deve se espantar com a existência dessas pessoas que usam o horário comercial (ou qualquer horário que seja) de forma produtiva, ao invés de permanecerem indefinidamente em filas de atendimento em Centros de Saúde ou de atenderem a “chamada ao diálogo” com representantes da prefeitura, ao “fala, que eu te escuto” oficial, que facilmente antecipamos como infrutíferos. Desse modo, minha esposa foi incumbida da infeliz tarefa de deixar os filhos em casa aos cuidados da avó paterna, e falar a e, pior, ouvir Juliana Daher. Portanto, o que escrevo tem por base as impressões emitidas por minha esposa, mas eu facilmente me imaginei não tendo ultrapassado os primeiros 5 minutos de conversa, dada a configuração tão clara de inutilidade com que parece ter sido levada desde o início.
Nossas demandas foram apresentadas formalmente, assim como as dos outros 2 pais. Ou melhor, nem eram nossas demandas pessoais específicas, mas propostas de ação, de (às vezes) pequenas medidas com potencial de mudar o status geral da atenção ao autismo na cidade. Não acreditamos no poder de soluções individualizadas nesse caso. O que poderiamos conseguir? Subir de uma para duas sessões semanais de terapia apenas para essas 3 famílias? A qual custo? O silêncio? Por quanto tempo? Até a próxima transição de poder na prefeitura? Ou mesmo antes disso, em um ajuste orçamentário? Acho que também já ficou claro que não acreditamos e não respeitamos a privacidade de informações de utilidade pública. Não admitimos a hipótese de não expor ou moderar nossas opiniões em nome de um receio abstrato de que o poder público poderia retaliar, negando atendimento, reduzindo ainda mais sua qualidade ou desistindo de benefícios individuais que pensava oferecer. Não, continuaremos a emitir nossas opiniões, com todas as palavras fortes que porventura se façam necessárias, e continuaremos a receber o atendimento que já recebíamos e a exigir aquele que nos é de direito, independente dos meios a que porventura precisemos recorrer. Nós temos esses meios à disposição e sabemos como recorrer a eles.
Voltando ao contato inútil, a princípio, Juliana Daher foi radiantemente simpática e começou a conversa deixando clara a informação absolutamente irrelevante sobre o nível com que ela amava o que fazia. Já uma maneira esquisita de começar uma conversa com um desconhecido que não está nem um pouco interessado em uma relação de amizade ou tem obrigação a ter qualquer nível de simpatia por você, porque foi ali para cobrar alguma coisa. A princípio, uma terapeuta ocupacional, Juliana Daher já trabalhou em uma reconhecidamente competente clínica (particular) de reabilitação na cidade (onde minha filha também já foi atendida), com experiência no atendimento a autistas, e agora “milita” na prefeitura, onde coordena ou ajuda a coordenar uma rede de profissionais de saúde mental que precisam atender uma grande variedade de demandas. Eventualmente, também faz parte dessa “militância” junto à prefeitura reservar tempo para ouvir, aos sorrisos, as poucas vozes reclamantes e fornecer justificativas fúteis e potencialmente anestesiantes. Agora me pergunto a exatamente o que ela se referia quando disse que amava o que fazia, se aos atendimentos como terapeuta ocupacional, ou se a atual “militância”. Provavelmente à segunda, o que, infelizmente, mina boa parte do bom profissionalismo que ela possivelmente exibia durante seu período produtivo. Não sei porque uso aspas em militância, porque o tipo de atuação a que esse tipo de funcionário público é preciso recorrer tem diferenças muito pequenas à uma militância político-ideológica tradicional.
Funcionários da Prefeitura de Belo Horizonte parecem ter uma capacidade bastante peculiar de combinar (singular e competentemente) simpatia e suposta disposição a ouvir a sociedade, com uma espécie particular de cinismo que pretende tornar naturais todos os problemas apresentados, na tentativa de dar a todos eles quase um status de "fatalidades da natureza humana", que só podemos corrigir na margem, não havendo a menor possibilidade de uma mudança estrutural. Assim, "psicólogos da linha comportamental podem ser quase tão inúteis aos autistas quanto os da linha analítica". O que pode ser facilmente interpretado como o seguinte: na prática, o problema é que a maior parte dos psicólogos que fazem parte da rede municipal é ruim demais para ser útil a qualquer autista, independente da sua linha de ação.
Juliana Daher alertou que a PBH não pode (ou não quer?) exigir linhas de atuação específicas ou experiências especificas nos editais de contratação de profissionais para a rede de saúde mental. Disse que o profissional, seja qual for sua formação e experiência, é obrigado a lidar da melhor forma que encontrar com qualquer tipo de demanda que aparecer. Ela não mencionou sequer algum tipo de apoio técnico que pudesse ser dado, como palestras com especialistas, disponibilização de material técnico para estudo, ou cursos de introdução à técnicas específicas de terapia para autistas. É curioso, porque sabemos de casos de psicólogos comportamentais que oferecem gratuitamente na cidade cursos introdutórios em ABA para pais de crianças autistas. Também não houve qualquer menção à qualidade dos profissionais que fazem parte dessas equipes multidisciplinares, independente de suas formações e experiências. Não é difícil imaginar o tipo de profissional que pode se sentir suficientemente atraído por esse tipo de proposta e condições de trabalho, pessoas que, no dia a dia, ainda são obrigadas a ouvir seus gerentes regionais de saúde e, com sorte, alguma Juliana Daher que ao menos possa apresentar um sorriso junto às cobranças.
Maverick mathologist, anxiety-driven shadower, infornographic writer, edupunk.
Contact: gladstone(at)gmail(dot)com
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Sou "engenheiro de automação e controle" por formação. Mestre em engenharia elétrica (UFMG, 2004), doutorando. Um "maverick mathologist", na definição de Paul Richard Halmos.